O papel do professor no TDAH


Claramente, os sintomas cardinais do TDAH (desatenção, hiperatividade e impulsividade) afetam a vida escolar e acadêmica. Esses sintomas comprometem as chamadas funções executivas, que envolvem o controle da atenção, o processamento da informação, a flexibilidade cognitiva, o estabelecimento de objetivos,a memória operacional e o controle inibitório.

Déficits nessas funções podem resultar em dificuldades para completar tarefas, cometimento de erros de procedimento que não consegue corrigir, respostas lentificadas (leva mais tempo para compreender o que é pedido e para realizar as tarefas), dificuldades com mudanças de regras, de tarefas e de ambientes, poucas habilidades de resolução de problemas, dificuldades no aprendizado de novas tarefas, dificuldades de inibir comportamentos inadequados, entre outras.

Mas se o TDAH é um transtorno ou ainda um problema de saúde mental, por que o professor teria responsabilidade sobre o tratamento? A Declaração de Salamanca (1994), uma resolução das Nações Unidas que trata dos princípios, política e prática em educação especial,  refere que  “Toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem únicas. Sistemas e programas educacionais devem ser designados e implantados para contemplar a ampla diversidade dessas características e necessidades”.

O papel do professor fica ainda mais evidente quando olhamos para os resultados de inúmeras pesquisas científicas que acompanharam indivíduos com TDAH ao longo da vida escolar:

  • 1/3 ou mais ficarão para trás na escola, no mínimo uma série durante sua carreira escolar.
  • Até 35% nunca completará o ensino médio.
  • Notas e pontos acadêmicos conseguidos estão significativamente abaixo das notas e pontos de seus colegas de classe.
  • Entre 40% a 50% acabarão por receber algum tipo de serviço formal através de programas de educação especial, como salas com recursos, e até 10% poderá passar todo o seu dia escolar nesses programas.
  • 15 a 25% dessas crianças serão suspensas ou até expulsas da escola devido a problemas de conduta (comorbidade com transtorno opositivo desafiador e de conduta).

escola

Apesar desse cenário, os dados indicam claramente a eficiência das técnicas comportamentais sobre o desempenho acadêmico da criança com TDAH. Porém, os principais obstáculos para implementar estratégias comportamentais em sala de aula são o tempo e a sua atitude do professor em relação às estratégias. Por isso, a motivação do professor é importante.

Como contribuir para a melhora da criança? Primeiramente o professor deverá conhecer o transtorno e diferenciá-lo de má-educação ou preguiça. Ter disponibilidade para equilibrar as necessidades das outras crianças com a atenção requisitada por uma criança TDAH. As estratégias utilizadas com melhores resultados incluem controle de estímulo, “quebra” das tarefas em pequenas, partes de forma a torná-las compatíveis com os períodos que a criança consegue manter a concentração e o estabelecimento de tarefas a serem realizadas em intervalos curtos de tempo (Barkely, 1998). “O professor ideal terá mais equilíbrio e criatividade para criar alternativas e avaliar quais obtiveram melhor funcionamento prático. Deverá saber aproveitar os interesses da criança, criando situações cotidianas que a motivem, e oferecer feedback consistente, imediatamente após o comportamento da criança” (Rief, 2001).

Seguem mais algumas estratégias para a sala de aula:

1. Identifique quais os talentos que seu aluno possui. Estimule, aprove, encoraje e ajude no desenvolvimento deste.

2. Elogie sempre que possível e minimize ao máximo evidenciar os fracassos. O prejuízo à auto-estima frequentemente é o aspecto mais devastador para o TDAH. O prazer está diretamente relacionado à capacidade de aprender.

3. Solicite ajuda sempre que necessário. Lembre-se que o aluno com TDAH conta com profissionais especializados neste transtorno.

4. Evite o estigma conversando com seus alunos sobre as necessidades específicas de cada um, com transtorno ou não.

5. Rotina e organização são elementos fundamentais para o desenvolvimento do alunos, principalmente para os portadores de TDAH. Assim, alertas e lembretes serão de extrema valia.

6. Quanto mais próximo de você e mais distante de estímulos distratores, maior benefício ele poderá alcançar.

7. Deixe claras as regras e os limites inclusive prevendo conseqüências ao descumprimento destes. Seja seguro e firme na aplicação das punições quando necessárias, optando por uma modalidade educativa, por exemplo, em situações de briga no parque, afaste-o do conflito porém mantenha-o no ambiente para que ele possa observar como seus pares interagem.

8. Avalie diariamente com seu aluno o seu comportamento e desempenho estimulando a auto-avaliação. Informe freqüentemente os progressos alcançados por seu aluno, buscando estimular avanços ainda maiores.

9. Dê ênfase a tudo o que é permitido e valorize cada ação dessa natureza.

10. Ajude seu aluno a descobrir por si próprio as estratégias mais funcionais.

11. Estimule que seu aluno peça ajuda e dê auxílios apenas quando necessário.

12. Determine intervalos entre as tarefas como forma de recompensa pelo esforço feito. Esta medida poderá aumentar o tempo da atenção concentrada e redução da impulsividade.

13. Combine saídas de sala estratégicas e assegure o retorno. Para tanto, conte com o pessoal de apoio da escola.

14. Destaque palavras-chaves fazendo uso de cores, sublinhado ou negrito. Estimule o aluno destacar e sublinhar as informações importantes contidas nos textos e enunciados.

15. Evite atividades longas, subdividindo-as em tarefas menores. Reduza o sentimento de “eu nunca serei capaz de fazer isso”. Mescle tarefas com maior grau de exigência com as de menor. Incentive a leitura e compreensão por tópicos.

Outras estratégias podem ser encontradas na cartilha da ABDA – Associação Brasileira do Déficit de Atenção, TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade: Uma conversa com educadores e na Cartilha de Inclusão Escolar: Inclusão Baseada em Evidências da Associação Brasileira de Neurologia, em parceria com outras entidades, com recomendações objetivas e passíveis de inclusão (as recomendações para TDAH estão nas páginas 23-25).

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