Estamos realmente vivendo uma epidemia de TDAH?


Geralmente nos deparamos com postagens e questionamentos nas redes sociais sobre o excesso de diagnósticos de TDAH, especialmente entre as crianças. Mas será que as taxas de diagnóstico do transtorno vem realmente aumentando nas últimas décadas?

Para responder essa questão nos baseamos em um excelente artigo científico recente, que inclui dois pesquisadores brasileiros de renome na área do TDAH – ADHD prevalence estimates across three decades: an updated systematic review and meta-regression analysisdos autores Guilherme Polanczyk, Erik Willcutt, Giovanni Salum, Christian Kieling e Luis Rohde.

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O reconhecimento e o tratamento do TDAH tiveram início a partir da segunda metade do século 20. Desde então, avanços significativos têm sido feitos no sentido de compreender o transtorno, o que resultou não apenas na disseminação de conhecimento entre as sociedades, mas também no crescente reconhecimento e tratamento dos indivíduos afetados. Porém, preocupações sobre a prevalência e a validade do transtorno têm surgido e por várias razões, tais como por uma aparente maior prevalência nos países ocidentais (como os EUA) e por um aumento aparente na taxa do transtorno ao longo do tempo. Por exemplo, nos EUA, duas pesquisas telefônicas nacionais demonstraram que a porcentagem de crianças de 4 a 17 anos com diagnóstico de TDAH, de acordo com os pais, aumentaram 21,8% de 2003 a 2007. Uma razão adicional para essa preocupação seria a pressão das indústrias farmacêuticas contribuindo para o aumento as taxas de diagnóstico e, por conseguinte, de prescrições para o tratamento dos transtornos.

Dessa forma, os pesquisadores identificaram 154 estudos originais e incluíram 135 em uma análise multivariada. Eles concluíram que durante as últimas três décadas, as estimativas de prevalência não variaram em função do tempo. Apesar de haver uma variabilidade nas estimativas de prevalência do TDAH, não há nenhuma evidência científica para sugerir um aumento no número de crianças com TDAH na população, quando os procedimentos diagnósticos padronizados são seguidos. Essa variabilidade das estimativas de prevalência de TDAH é principalmente explicada pelas características metodológicas dos estudos. O aumento das taxas de diagnóstico e tratamento do TDAH é provavelmente devido a um reflexo do aumento da conscientização, do acesso ao tratamento ou de alterações nas práticas clínicas.

Simplificando: o que aumentou não foi a prevalência do TDAH (número de pessoas afetadas), mas sim seu entendimento e reconhecimento e, por isso, há um maior número de diagnósticos.

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